terça-feira, 9 de dezembro de 2014

bolas de gude'

rua

É,
as coisas muito boas vão embora mais cedo
a maldade é flor de uma menina
a quem você devota
a quem você dedica
a quem você confia o gozo
a quem você ensina a viver
pensando você pensando em você

ela, o dia torto de um inverno inteiro ao vento morno
ela, a esperança desespera e o futuro fica a cada vez menor

cigarras cantam à correnteza
sua menina não vem lhe ver
para beijar os pés mordidos pelo chão
você achando que o chão por ser um chão
dormia

e você chegava cada vez mais perto
de um lugar bonito de se crer
pensando em você
feliz toda manhã

as coisas muito boas vão embora mais cedo
você cai no mundo do estranho

com muitas mentiras a dizer
quem a você devota
quem a você dedica
quem a você confia o gozo
quem a você ensina a viver
pensando em você
feliz toda manhã.


doabsurdo.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

oprovisório

"Tudo o que é do domínio afetivo reclama o absoluto. O filho quer a mãe por toda a vida, os amantes querem se amar e serem amados por toda a vida, tudo em nós pede o definitivo enquanto que a vida nos ensina o provisório. O verdadeiro dilaceramento reside na necessidade de aceitarmos o provisório para sobrevivermos."

- François Truffaut
  (1988)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

man-oé


Me abandonaram sobre as pedras infinitamente nu, e meu canto.
Meu canto reboja.
Não tem margens a palavra. Sapo é nuvem neste invento.
Minha voz é úmida como restos de comida.
A hera veste meus princípios e meus óculos.
Só sei por emanações por aderência por incrustações.
O que sou de parede os caramujos sagram.
A uma pedrada de mim é o limbo.
Nos monturos do poema os urubus me farreiam.
Estrela é que é o meu penacho!
Sou fuga para flauta e pedra doce.
A poesia me desbrava.
Com águas me alinhavo.


Manoel de Barros

apalavra

-

Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.

Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.

- C.D. de Andrade

terça-feira, 18 de novembro de 2014

paneló



Tudo o que acontece, acontece.
Tudo o que, ao acontecer,
faz com que outra coisa aconteça,
faz com que outra coisa aconteça.
Tudo o que, ao acontecer, faz com que ela mesma
aconteça de novo, acontece de novo.
Isso, contudo, não acontece necessariamente em ordem cronológica.
Douglas Adams,


[se fosse, tu;
um som - seria um belo dum'
samba de raiz.
mas
pra dizer da beleza de teus olhos'
samba ninhum']

---

pudesse'eu

-
Pudesse eu nada ser, não possuir qualquer razão,
Que mesmo assim dar-te-ia todo o meu coração...
Porque amar-te é conhecer-me, para além de tudo o que vejo,
De tudo o que digo - não dizendo,
De tudo o que tenho no meu olhar e…
Que só tu sabes ver..."

andresousa

sexta-feira, 14 de novembro de 2014