quinta-feira, 14 de março de 2013

iportugal

Eu vou escrevendo a minha história. Ora com lápis clarinho com letra quase invisível, que são os momentos silenciosos, onde os rabiscos saem tímidos, quase sem querer. Ora com caneta preta, vermelha, forte, grifando bem as palavras para eu não me esquecer. Considerando cada momento, cada etapa, seja ela qual for de extrema importância, sem, contudo achar que estou fazendo algo fabuloso.

E não é que me falte desejos! Tenho sim, desejos de escrever uma história fenomenal, mas por enquanto fico devendo e vou apenas cumprindo a minha função de escrever alguns dias perfumados e outros sem nenhum odor. Essa tarefa eu me dou ao prazer e acho proveitoso observar que não sou restrita. Escrevo longas laudas. Apago e algumas vezes, amasso, jogo fora e começo tudo de novo.

Sem essa de melancolia. Escrevo alegremente e quando volto para reler o que foi escrito, percebo que realizei algumas coisas bacanas e cometi algumas loucuras que se pudesse não teria feito. Isso são pensamentos de minutos, pois até as loucuras me foram permitidas viver. Sem essas loucuras eu não teria colecionado um bocado de sonhos e ousadia para pensar outros.

Escrevo quando me dá na cabeça e palavras saciam minhas indagações, mesmo sem trazer respostas coerentes. Minha escrita vem da alma, sem intenção de salvar quem quer que seja. Escrevendo, permuto a tristeza, a saudade, a angústia pelo afeto e assim resolvo minhas indagações sentimentais.

Considero-me boa. Boa nos exageros, na pressa, nas urgências, na falta de paciência. Sou capaz de fazer atrapalhadas fenomenais, sem ofender ou ultrapassar meus limites.


Minha história, escrita numa letra legível, redonda e bem definida, possui uma sequência de saídas, soluções, respostas, resultados, como se fosse uma operação matemática. Estes trechos foram os momentos de sanidade, razão tomando pé da situação, dando as ordens, debochando da intolerante emoção. Vez ou outra aparecem uns lances perigosos tentando derrubar a eloqüência da razão. Nada mal para quem gosta de acertar.


Sem aceitar reprovação, alguns trechos e que são exatos do meu feitio, possuem uso sem moderação de extensa pontuação. São as vírgulas necessárias indicando um suspiro leve. As infinitas reticências, que aguardam respostas para questões subjetivas, únicas, particulares. São os tempos de fragilidade, incertezas e de lágrimas. Há ainda algumas escritas imbecis, emburradas e instigantes que variam de interrogações a exclamações, como se eu tivesse realizado grande coisa, ou colocado contra a parede a vida. A minha vida.


Existem ainda trechos de concordância dos pontos finais. Fecharam-se ciclos, concordei ou precisei aceitar algumas coisas. Aspirando um novo começo. Uma nova etapa, as reticências cumpriram sua missão. Deixando, algumas seqüelas afetivas, incapazes de reagir à tamanha decisão da minha história, os pontos finais anunciam partidas daquilo que foi vivido e chegadas, reconfortando os sonhos e acalentando as esperanças.
Mesmo assim, nos momentos de claridade, não revido ofensas e nem causo furacões de qualquer natureza. Vou vivendo um pouco aqui, um pouco ali. Deslizo. Tropeço. Acerto. Um pouco por amor e outro pouco por insistência.

Amor é minha maior substância. Com ele tenho intimidade. Aliás, interesso-me pelo amor e sinceramente espero que ele também tenha interesse em mim. Esse é o gancho que uso para entregar-me aos bons sentimentos. E desse jeito, muito pessoal eu repenso sobre meus erros. Refaço meus conceitos e rapidamente percebo que percorro sempre o mesmo caminho. Tarde demais para pensar em trocar os fusíveis do coração. Levo tudo ou tudo vai me levando.


Esses são mais tradicionais sintomas de quem se abestalha pelo amor. Fui premiada com eles todos. Com todo este desastre emocional eu me curo nas letras ou elas me curam. Pouco importa a ordem, só sei que apesar de tudo, acho isso muito libertador. Encolho-me e estico tanto o coração quanto o corpo para ver no que vai dar.

Nesse ritual, recorro com facilidade ao mundo lá fora para ver se combina com o mundo que há dentro de mim. Caso a opção seja falsa, não me encho de questionamentos. Deixo pra depois. Amanhã quem sabe volto a pensar no assunto.


Acho tudo isso bonito, mesmo sem ver sombras de glória, sucesso e uma porrada de outras coisas que deveriam submergir as histórias de vida. Essa é a minha, poxa. Bem ou mais ou menos escrita, comprova a minha existência, as minhas tentativas irritantes e a minha insignificância em alguns momentos. Escrevo e canto. Canto e escrevo, com promessas de deixar prevalecer o essencial, o básico. Deixo tudo isso caber dentro de mim e se sobrar espaços, colocarei mais romances, amores, ternuras, doses mais generosas de alegria. Tudo sempre mais, para não sobrar nenhuma página em branco.

Ac

Ai Margarida,
Se eu te desse minha vida,
Que tu farias com ela?
-Tirava os brincos do prego,
Casava c’um homem cego
E ia morar na Estrela.

Mas, Margarida
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
-(Ela conhece-me a fundo)
Que há muito parvo no mundo
E que eras parvo também.

E Margarida,
Se eu te desse minha vida
No sentido de morrer?
-Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro,
Querer amar sem viver.

Mas Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
-Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.

quarta-feira, 6 de março de 2013

¨

"Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver"


Alberto Caeiro, 23/07/1930

segunda-feira, 4 de março de 2013

-nb-

Tem alguma coisa no teu abraço, no teu riso, que me come, que me excita, que me irrita de uma maneira despreocupada e leve. Eu aprecio cada expressão ingênua sua, me fazendo parecer a rainha do drama e sendo meu fiel cavalheiro. Existe algo nos teus olhos que me engolem firme e desesperados, suplicando por qualquer coisa que faça você permanecer no mesmo lugar, mais que alguns dias. Por vezes te vejo indo e vindo, sem rumo, sem prumo, sem grito, sem guerra; enquanto tento te explicar o quanto preciso de você aqui. Até descobrir que eu não preciso dizer nada, cada detalhe meu te abre as portas e janelas da casa. Os livros na mesa de centro, teu disco que ainda não fugiu da vitrola, tua camisa que me aquece em noites a fio, naquele inverno que parece eterno quando não está. Entrelaço meus braços pela sua cintura e me abrigo em braços largos - que me trazem certezas guardadas em um coração que eu já nem sentia mais bater

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

fermata

Feito música, tua voz em notas graves invadiu a minha alma
E meu peito acelerado descompassou nessa canção.
Entre bemóis e sustenidos, te ouvi pedindo calma,
Ao ler feito partitura o som da minha inquietação.

Entre passos e compassos,
Revivi nossa antiga melodia.
Te senti mais uma vez no meu abraço,
E dançamos como fora no primeiro dia.

Mas na escala da esperança,
Não ouvi agudo tom.
Pois teu grave, tão contido,
Me negava audível som.

E no fim dessa canção, composta em um reencontro,
Não fizemos com sucesso, esse dueto lado a lado.
Pois notando a ilusão em teu olhar se despedindo,
Minha boca solfejou mais um adeus desafinado.


G.F.

djá

O seu amor
Reluz
Que nem riqueza
Asa do meu destino
Clareza do tino
Pétala
De estrela caindo
Bem devagar...

Oh! meu amor!
Viver
É todo sacrifício
Feito em seu nome
Quanto mais desejo
Um beijo, um beijo seu
Muito mais eu vejo
Gosto em viver
Viver!

Por ser exato
O amor não cabe em si
Por ser encantado
O amor revela-se
Por ser amor
Invade
E fim

domingo, 17 de fevereiro de 2013

nerú

Quando o tempo nos vai comendo com o seu relâmpago quotidiano decisivo, as atitudes fundadas, as confianças, a fé cega se precipitam e a elevação do poeta tende a cair como o mais triste nácar cuspido, perguntamo-nos se já chegou a hora de envilecermos. A hora dolorosa de ver como o homem se sustém a puro dente, a puras unhas, a puros interesses. E como entram na casa da poesia os dentes e as unhas e os ramos da feroz árvore do ódio. É o poder da idade, ou porventura, a inércia que faz retroceder as frutas no próprio bordo do coração, ou talvez o «artístico» se apodere do poeta e, em vez do canto salobro que as ondas profundas devem fazer saltar, vemos cada dia o miserável ser humano defendendo o seu miserável tesouro de pessoa preferida? 
Aí, o tempo avança com cinza, com ar e com água! A pedra que o lodo e a angústia morderam floresce com prontidão com estrondo de mar, e a pequena rosa regressa ao seu delicado túmulo de corola. 
O tempo lava e desenvolve, ordena e continua. 
E que fica então das pequenas podridões, das pequenas conspirações do silêncio, dos pequenos frios sujos da hostilidade? Nada, e na casa da poesia não permanece nada além do que foi escrito com sangue para ser escutado pelo sangue.